A Polícia Federal (PF) apontou que dirigentes do Banco de Brasília (BRB) e do Banco Master atuaram de forma coordenada para manter um fluxo bilionário de recursos do banco público à instituição controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro.

As informações constam em um relatório da PF entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), que traz o indiciamento do ex-controlador do Master, Daniel Vorcaro, e de outras 13 pessoas investigadas por suspeitas de envolvimento nas irregularidades.

Segundo a corporação, entre julho de 2024 e outubro de 2025, os dois bancos negociaram aproximadamente R$ 17,5 bilhões em carteiras de crédito.

As operações não ocorreram de forma isolada, mas integravam uma estratégia que combinava compras de carteiras de crédito, aumentos de capital do BRB e a tentativa de aquisição do Master.

Os investigadores afirmam que essas operações eram articuladas para ampliar a capacidade do BRB de realizar novas aquisições de crédito e permitir que a instituição continuasse comprando carteiras do Master, que enfrentava uma grave crise de liquidez. O Master acabou liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025.

“Os aumentos de capital, as aquisições de NPLs e as compras de carteiras constituíam movimentos coordenados e interdependentes, concebidos para produzir efeitos econômicos complementares e assegurar a continuidade da transferência de recursos ao Banco Master”, afirma a PF.

A corporação prossegue: “Embora este recorte investigativo esteja centrado nas operações relacionadas às cessões de carteiras de crédito consignado, os elementos coligidos revelam que a fraude financeira praticada em detrimento do Banco de Brasília (BRB) se desenvolveu, ao menos, em três frentes distintas e interligadas: (i) compra, recompra e substituição de créditos; (ii) operações relacionadas ao aumento de capital do BRB; e (iii) a tentativa de aquisição do Banco Master, no âmbito do denominado Projeto Vértice.”

Segundo os investigadores, dos R$ 17,5 bilhões negociados, ao menos R$ 12,2 bilhões correspondem a créditos comercializados “sem a devida comprovação de sua existência, concentrados principalmente entre janeiro e maio de 2025”.

O banqueiro argumentava que o Master já havia contribuído para o fortalecimento financeiro do BRB por meio da compra de ações em aumentos de capital e da aquisição de carteiras de créditos inadimplentes, conhecidas como NPLs. 

O relatório entregue pela PF cita ainda que a cúpula do BRB utilizava mecanismos para evitar que as compras bilionárias de carteiras de crédito do Master fossem submetidas ao Conselho de Administração do banco distrital.

As operações eram divididas em parcelas de até R$ 750 milhões, valor máximo que poderia ser aprovado pela Diretoria Colegiada.

Além disso, aproximadamente R$ 7,6 bilhões foram desembolsados em operações cujos pareceres técnicos obrigatórios só foram concluídos depois dos pagamentos.

Os documentos analisados pela PF indicavam consumo acelerado de caixa e deterioração dos indicadores financeiros. O índice de liquidez de curto prazo chegou a 0,86, abaixo do limite mínimo de 1,5 estabelecido pelo próprio banco.

“Ocorre que, não obstante a circulação institucional desses alertas, o acionamento do Plano de Contingência de Liquidez e a posterior ciência formal da DICOL [Diretoria Colegiada] acerca dos reportes produzidos pela área de risco, a estratégia de aquisição de carteiras do Banco Master foi mantida”, escreve a PF.

O relatório prossegue: “Além da neutralização dos mecanismos de governança, as salvaguardas contratuais instituídas em favor do BRB também deixaram de ser efetivamente observadas. A documentação analisada demonstra que não foram exigidas as amostras de contratos previstas nos instrumentos celebrados entre as partes, tampouco foi apresentada, no prazo contratualmente estabelecido, a auditoria independente que deveria ser disponibilizada em até 90 dias sobre todos os créditos que compunham as carteiras negociadas.”