O custo anual dos juros sobre a dívida rural brasileira avançou 191% entre 2021 e 2025, passando de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, em valores corrigidos pela inflação. No mesmo período, a taxa média das novas operações de
O encarecimento do financiamento, combinado à perda de rentabilidade em parte das atividades agropecuárias, ajuda a explicar a disparada da inadimplência no campo.
Os pesquisadores Lucilio Alves e Geraldo Barros apontam que o recorde de inadimplência não decorre simplesmente de um endividamento excessivo em relação à renda do setor. A mudança está no custo da dívida, na composição das fontes de financiamento e na concentração dos compromissos em atividades que perderam margem.
Uma das transformações identificadas foi o avanço do crédito a taxas de mercado. Essas fontes representavam 5% das contratações rurais em 2013 e chegaram a 40% em 2025.
Crise mais forte nos grãos
A deterioração financeira também tem relação com a perda de rentabilidade no campo. Entre 2021 e 2025, os preços reais dos grãos caíram 28%, enquanto os da pecuária avançaram 12%.
No mesmo intervalo, a renda do ramo agrícola recuou de R$ 599 bilhões para R$ 539 bilhões. A pecuária, por outro lado, passou de R$ 270 bilhões para R$ 331 bilhões, em valores corrigidos.
O custo dos fertilizantes ampliou a pressão sobre os produtores de grãos. Em 2025, foram necessárias, em média, 29,1 sacas de soja para comprar uma tonelada de fosfato diamônico (DAP), ante 16,7 sacas na média entre 2010 e 2019.
R$ 205 bilhões em carteira problemática
A dimensão do problema vai além dos atrasos superiores a 90 dias. Em agosto de 2026, a carteira problemática do crédito rural somava R$ 205 bilhões, equivalente a 23,8% da carteira ativa de R$ 862,7 bilhões.
O valor inclui R$ 105 bilhões em dívidas renegociadas, R$ 31 bilhões prorrogadas, R$ 48,5 bilhões inadimplentes e R$ 21 bilhões em atraso. Portanto, boa parte das operações já precisou de algum tipo de reorganização para evitar o agravamento da situação.
A dificuldade financeira também alcança outros elos da cadeia. Segundo levantamento do Núcleo de Estudos em Operações e Transformações do Agronegócio (NEOT) citado na pesquisa, foram registrados 517 pedidos de recuperação judicial no agronegócio no primeiro trimestre de 2026. Desse total, 212 partiram de empresas como revendas de insumos, agroindústrias, usinas e companhias de logística e armazenagem.
A MP (Medida Provisória) 1.376/2026, criada para facilitar a renegociação de dívidas rurais, havia alcançado R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro, apenas 5% dos R$ 120 bilhões estimados inicialmente pelo governo, segundo os pesquisadores do Cepea.
Outro dado chama a atenção: apenas R$ 79 milhões foram destinados à renegociação de dívidas de investimento, o equivalente a 1,3% do total contratado.
Para os pesquisadores, esse é um ponto importante, já que parte do endividamento está associada a investimentos realizados entre 2020 e 2022, quando as margens do setor eram mais elevadas.
O estudo conclui que a resposta à crise não deve ser necessariamente um alongamento generalizado dos débitos. É preciso distinguir produtores com dificuldades temporárias de caixa daqueles cuja capacidade de geração de renda já não comporta o tamanho da dívida.

